O Peso do Título
Imagine a cena: você está no trabalho, no meio de uma reunião importante, quando percebe que esqueceu de avisar a escola sobre a alergia do seu filho. O coração dispara. A mente já corre para o pior cenário. E junto vem aquela voz familiar: "Como você pôde esquecer? Que tipo de mãe você é?"
Essa sensação — de estar sempre a um passo do desastre — é exatamente o que a série All Her Fault (baseada no livro homônimo de Andrea Mara) captura de forma visceral. A história começa quando Marissa, uma mãe trabalhadora, vai buscar o filho em um playdate e descobre que a criança desapareceu. A casa está vazia. A família sumiu.
Mas antes mesmo de qualquer investigação começar, o julgamento já está feito. O título diz tudo: "Tudo culpa dela".
E é exatamente isso que torna essa série tão perturbadora — não apenas como suspense, mas como espelho. Porque para muitas de nós, o verdadeiro horror não está na ficção. Está no medo constante de "deixar a peteca cair" enquanto tentamos equilibrar mil pratos ao mesmo tempo: trabalho, filhos, casa, relacionamentos, e ainda sobrar algo de nós mesmas.
A Realidade da Jornada Dupla
A série é ficção. Mas a exaustão? Essa é absolutamente real.
Segundo dados do IBGE, as mulheres brasileiras dedicam, em média, 21 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados com pessoas — quase o dobro do tempo dedicado pelos homens. E isso acontece além da jornada de trabalho remunerado.
Não é à toa que tantas mulheres se sentem esgotadas. A matemática simplesmente não fecha.
A Carga Mental: O Trabalho Invisível
Mas existe algo ainda mais insidioso do que as tarefas em si: a carga mental.
Carga mental não é apenas fazer — é lembrar, planejar, antecipar, gerenciar. É:
- Lembrar que a vacina está atrasada
- Perceber que a roupa do filho não serve mais
- Planejar o cardápio da semana pensando em quem come o quê
- Saber de cabeça o horário de todas as atividades extracurriculares
- Notar que o shampoo está acabando antes que acabe
Esse gerenciamento constante acontece em segundo plano, 24 horas por dia, 7 dias por semana. É um trabalho que não aparece, não é reconhecido e raramente é dividido.
A "Supermulher" Cansada
A expectativa social é cruel: espera-se que a mulher trabalhe como se não tivesse filhos e crie filhos como se não trabalhasse.
E quando inevitavelmente algo falha — porque somos humanas, não máquinas — o dedo aponta para nós. A sociedade aponta. A família aponta. E, o mais doloroso de tudo: nós mesmas apontamos.
"Eu deveria dar conta."
"Outras mães conseguem, por que eu não consigo?"
"Se eu fosse mais organizada..."
O Ciclo da Culpa e da Ansiedade
Assim como Marissa na série, que é imediatamente julgada pelo desaparecimento do filho — mesmo sem qualquer evidência de negligência —, na vida real muitas mulheres vivem com a sensação de estarem sempre a um passo do fracasso.
Os sintomas são conhecidos:
- Sensação constante de insuficiência: Não importa o quanto você faça, nunca parece ser o bastante.
- Irritabilidade: O pavio curto que vem do esgotamento, seguido de mais culpa por ter "explodido".
- Perda de identidade: "Quem sou eu além de mãe e funcionária?"
- Exaustão crônica: Um cansaço que o final de semana não resolve, que as férias não curam.
Esse ciclo se retroalimenta. A culpa gera ansiedade. A ansiedade gera mais cobrança. A cobrança gera mais exaustão. E a exaustão... gera mais culpa.
Como Sair Desse Ciclo? A Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT)
Se você chegou até aqui se reconhecendo em cada linha, talvez esteja se perguntando: "Tá, mas o que eu faço com isso?"
A resposta não é "se esforçar mais" ou "ser mais organizada". A resposta está em mudar a relação que você tem com esses pensamentos e sentimentos.
É aqui que entra a Terapia de Aceitação e Compromisso, ou ACT (lê-se "éct", como a palavra em inglês).
O Que é a ACT?
A ACT é uma abordagem terapêutica baseada em evidências científicas que foca em dois pilares principais:
- Aceitar o que está fora do nosso controle (incluindo pensamentos e emoções difíceis)
- Comprometer-se com ações alinhadas ao que realmente importa para nós
Diferente de abordagens que tentam eliminar ou controlar pensamentos negativos, a ACT nos ensina a mudar nossa relação com esses pensamentos — para que eles deixem de comandar nossa vida.
Como a ACT Ajuda na Sobrecarga Materna?
1. Desfusão Cognitiva: Pensamentos São Apenas Pensamentos
Quando você pensa "Eu sou uma péssima mãe porque trabalho fora", a ACT te ajuda a reconhecer isso como um pensamento, não como uma verdade absoluta.
A técnica da desfusão nos ensina a observar o pensamento de fora: "Estou tendo o pensamento de que sou uma péssima mãe". Parece sutil, mas essa pequena mudança cria um espaço entre você e o pensamento — um espaço onde você pode escolher como agir.
2. Aceitação: Dar Espaço Para o Desconforto
Sentir cansaço não é fraqueza. Sentir culpa não significa que você fez algo errado.
A ACT nos ensina a dar espaço para essas emoções difíceis, sem lutar contra elas (o que gera mais exaustão) e sem deixar que elas paralisem nossa vida. É como dizer: "Ok, a culpa está aqui. Eu a reconheço. Mas ela não vai decidir minhas ações."
3. Valores: O Que Realmente Importa Para Você?
Uma pergunta poderosa da ACT: Que tipo de mãe você quer ser? Não o que a sociedade diz. Não o que o Instagram mostra. O que você valoriza?
Talvez você valorize presença mais do que perfeição. Talvez valorize autenticidade mais do que controle. Reconectar-se com seus valores pessoais é como encontrar uma bússola em meio ao caos.
4. Ação Comprometida: Pequenos Passos, Grandes Mudanças
A partir dos seus valores, a ACT te ajuda a dar pequenos passos concretos. Não é sobre revolucionar sua vida da noite para o dia. É sobre escolhas diárias, alinhadas com o que importa.
Pode ser: pedir ajuda mesmo quando a voz interna diz que você "deveria dar conta". Pode ser: estabelecer um limite no trabalho. Pode ser: dedicar 15 minutos do dia só para você, sem culpa.
Você Não Precisa Carregar o Mundo Sozinha
Se a série All Her Fault nos ensina algo, é que o julgamento — especialmente o autojulgamento — é implacável. Mas também nos lembra que as aparências enganam, que ninguém conhece toda a história, e que às vezes o verdadeiro vilão não é quem parece.
A culpa que você carrega não é sua. A sobrecarga é sistêmica, não uma falha individual. Você não está falhando — você está operando em um sistema que foi desenhado para sobrecarregar.
E você não precisa resolver isso sozinha.
Pronta Para Reescrever Esse Roteiro?
Se você se sente protagonista do seu próprio drama de sobrecarga e culpa, saiba que a terapia pode ser um espaço para reescrever esse roteiro.
Um espaço onde você não será julgada. Onde o cansaço será validado. E onde, juntas, podemos encontrar caminhos para você viver de forma mais leve e alinhada com o que realmente importa para você.
Vamos começar?
Referências
- IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), 2022.
- Hayes, S. C., Strosahl, K. D., & Wilson, K. G. (2012). Acceptance and Commitment Therapy: The Process and Practice of Mindful Change.
- Mara, Andrea. All Her Fault. Penguin Books, 2021.
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